outubro 27, 2005

A última vontade do rei Hibban


Certa vez, me contou o Mestre Malba Tahan que, naquele tempo, em Mocala, reinava o poderoso Hibban, um dos mais vaidosos monarcas que têm vivido em todos os tempos. Sua preocupação única era imitar os imperadores célebres e os vultos notáveis da História.
Ouvira ele contar que os soberanos mais famosos do mundo pronunciaram sempre, antes de morrer, palavras que se tornaram célebres. Alexandre, por exemplo, em seu leito de morte, rodeado de amigos, quando lhe perguntaram a quem deixava as imensas terras e tesouros conquistados, respondeu: “Ao mais digno!”. César, o poderoso tirano de Roma, ao sentir-se apunhalado por seu filho adotivo, exclamou: “Até tu, meu filho! (Brutus)”. Nero – imperador assassino e incendiário – pouco antes de suicidar-se, lastimando seu próprio desaparecimento, fez ouvir, com ridícula jactância, o “Que artista o mundo vai perder!”. O austero e devastador Flávio Vespasiano, que durante dez anos dominou o mundo, Senhor de Roma, sentindo chegar-lhe a derradeira hora, erguendo-se do leito, exclamou: “Um imperador deve morrer de pé”.
E não poderia ele, de Mocala, também – pensava o rei Hibban – glorificar a sua morte pronunciando uma frase notável, digna de figurar nos anais da História, uma frase fulgurante que ficasse perpetuada, através dos séculos, pela Fama e pela Glória?
Mas qual seria? Que deveria ele dizer aos seus súditos mocalenses no derradeiro momento de sua vida? Um conselho? Uma imprecação? Um pensamento famoso?
Na dúvida – e como não lhe ocorresse uma idéia aproveitável – mandou o rei Hibban chamar o seu talentoso secretário Salim Sady, homem de sua inteira confiança, e contou-lhe, pedindo-lhe absoluto segredo, o grande desejo de sua vaidade doentia: Queria honrar a morte com uma frase que ficasse célebre, que se tornada conhecida e repetida pelo mundo inteiro!
Depois de meditar algum tempo, o digno secretário respondeu:
- Conheço, ó Rei dos Reis!, um verso de Mazuk, o célebre poeta curdo, que é magistral! Se Vossa Majestade pronunciar esse verso em dialeto curdo, fará uma coisa original, nunca vista. Nem o invencível Alexandre, nem os Césares famosos tiveram essa idéia! Ademais, o verso a que me refiro exprime um desejo nobre, um pensamento genial, digno de um verdadeiro rei.
- É bela e grandiosa a tua lembrança – concordou o rei. – É exatamente um verso emocionante que mais me agrada e que melhor poderá servir ao rei de Mocala. Mas qual é, afinal, o verso do grande Mazuk? Quero decorá-lo.
E o inteligente Salim Sady, honrando a confiança do rei, ensinou ao bom monarca o verso magistral de Mazuk, o maior dos poetas do Afeganistão:
“Naib aq vast y harde nosteby katib”, cuja tradução (declarou Sady) deveria ser, mais ou menos, a seguinte: “Esqueci os meus erros, pois só errei com a intenção de acertar”.
Guardou o rei Hibban de memória o verso, repetindo-o mentalmente várias vezes.
E um dia, sentindo-se muito doente, mandou chamar seus conselheiros, vizires, cádis e todos os grande dignitários do reino, e disse-lhes que ia pronunciar as últimas palavras e exprimir sua última vontade.
Erguendo-se no leito, trêmulo, macilento, exclamou bem alto, devagar, e solene, para que todos ouvissem:
“Naib aq vast y harde nosteby katib”.
E tão violenta foi a comoção daquele momento, que o vaidoso príncipe, ferido por uma síncope, morreu.
Aquela cena, de tão inesperado desfecho, impressionou profundamente a todos os presentes.
- Mas o que tinha dito o rei Hibban? – perguntaram uns aos outros, os cortesãos, pois ninguém no palácio conhecia o complicado dialeto curdo.
Dez escribas havia registrado, palavra por palavra, a última frase do rei. A tradução, feita pouco depois pelos doutores mais ilustres de Mocala, caiu como uma bomba no meio da nobreza e repercutiu com estrondo pelos salões repletos de muçulmanos.
Que teria dito o Rei de Mocala ao morrer?
A extraordinária verdade foi logo conhecida no país. Graças aos esclarecimentos dos ulemás e sábios filósofos, puderam todos verificar, com assombro, que o poderoso rei Hibban, senhor de Mocala, havia dito, apenas, o seguinte:
- Deixo tudo o que tenho para o meu bom secretário!