outubro 07, 2005

O elefante furioso






Conta Malba Tahan que, na floresta de Chaiva, na Índia, vivia outrora um santo anacoreta que tinha vários discípulos, aos quais falava constantemente discorrendo sobre os pontos obscuros de doutrinas e religiões.
Esse anacoreta havia ensinado aos jovens, que ouviam habitualmente as suas sábias palavras, a grande verdade que vem bem clara, nas escrituras sagradas:
“Deus reside em todas as coisas e seres do Universo. Reside tanto no homem como na víbora; tanto no elefante como na pedra solta da estrada.”
Ajamila, o mais moço dos discípulos, guardou fielmente os profundos e filosóficos ensinamentos de seu velho mestre. E um dia, quando voltava do monte, onde fora buscar lenha, encontrou um homem que conduzia um elefante furioso.
Não podendo dominar o monstruoso animal, o homem gritava, prevenindo os viandantes:
- Eh! Eh! Sai do caminho! Afasta-te! O elefante está furioso!
O discípulo, ao invés de fugir, como faria, no caso, um homem prudente, começou a recordar a doutrina do mestre, e pôs-se a raciocinar:
“Deus está naquele elefante. Logo, não devo fugir, pois que Deus não me pode fazer mal. Deus tanto está no elefante, como está em mim.”
O condutor, julgando que o jovem não ouvira ainda seus gritos, continua a clamar:
- Afasta-te, desgraçado, afasta-te, ó insensato!
O jovem, porém, não se afastou. Deixou-se ficar no meio da estrada, impassível, como um louco, com o seu molho de lenha ao ombro.
O elefante colheu o imprudente e deixou-o atirado ao solo, pisado, ferido e sem sentidos.
Dois lenhadores da floresta, que encontraram pouco depois o jovem naquele lamentável estado, levaram-no para a pequena choupana onde vivia o anacoreta.
Ao recuperar os sentidos, Ajamila contou ao sábio o que lhe havia acontecido, e a razão pela qual não se afastara do elefante furioso, apesar de prevenido pelo condutor.
- Meu filho – explicou o sábio – é bem verdade que se Deus está manifestado em todas as coisas, está também manifestado num elefante furioso que corre pela estrada. Se estava, porém, no elefante, não deixava de estar igualmente no condutor. Por que não prestaste, meu filho, atenção aos avisos cautelosos do homem?