dezembro 02, 2005

A Lenda da Vela Azul


Essa nos contou também Malba Tahan, em nome de Alá, Clemente e Misericordioso! Durante uma grande festa que se realizava no palácio, resolveu o rei Hassan Kamir fazer uma surpresa a seus inúmeros convidados.
Mandou, pois, chamar o sábio Hakk Zida, mago de grande renome, que se achava de visita em seu país, e disse-lhe, apontando para o rico salão repleto de nobres, vizires e fidalgos:
- Desejo, ó xeque, surpreender os meus convidados desta noite com uma maravilha qualquer. Terás uma recompensa de cem dinares de ouro se conseguires, com o teu poder mágico, deslumbrar a todos os cortesãos que aqui se acham.
Respondeu o moço, inclinando-se respeitoso e beijando a terra entre as mãos:
- Ó Rei do Tempo! A vossa ordem está sob os meus olhos e dentro do meu coração! Conheço, como sabeis, não só a Grande Magia, como os mistérios mais negros das Ciências Ocultas. Vou realizar, para encanto de vossos olhos e divertimento de vossos convidados, a grande mágica da vela azul!
- Que mágica é essa, da vela azul? – perguntou o rei. – Jamais ouvi falar em semelhante coisa.
O ilustre feiticeiro, depois de tirar de sua bolsa escura uma vela azul, explicou ao soberano:
- Vou acender, uma vez proferidas algumas palavras cabalísticas, esta pequena vela azul. A chama, a princípio clara e límpida, ir-se-á tornando pouco a pouco, azulada. Quando a chama estiver completamente azul, vereis, ó Rei, operar-se maravilhosa transformação nesta festa: todas as pessoas, fidalgos ou damas, que trouxerem, como adorno, peças de vestuário ou jóias que não lhe pertencerem, ficarão sem essas jóias ou sem essas peças! Desaparecerão, enfim, todos os objetos que não estiverem servindo a seus verdadeiros donos!
E, notando o espanto que suas palavras haviam causado ao rei, o mago achou de bom aviso acrescentar os seguintes esclarecimentos:
- Vedes ali, por exemplo, aquele fidalgo que ostenta no peito várias condecorações? Se essas insígnias não lhe pertencerem, desaparecerão pelo efeito mágico da vela azul! Aquela jovem e encantadora criatura, que conversa alegremente com o embaixador persa, traz uma belíssima capa, tão alva como os seus ombros de neve; é certo que, pelo encantamento da vela azul, a capa desaparecerá – tornando-se invisível – se a jovem que a exibe não for a sua verdadeira dona! E assim acontecerá, ó Rei! E os objetos desaparecidos só voltarão a aparecer quando se apagar a chama milagrosa da vela azul!
- Essa mágica será deslumbrante! – afirmou o rei, sem ocultar a intensa alegria que o dominava. – Desejo que a executes o mais depressa possível, pois estou ansioso por ver-lhe o desfecho surpreendente!
- Escuto-vos e obedeço-vos – respondeu o mago.
E, depois de pronunciar em voz baixa algumas palavras, acendeu a vela azul, utilizando-se de uma lanterna que se achava ao alcance da sua mão. Dentro de poucos minutos o encanto da magia iria colher, numa grande surpresa, os desprevenidos nobres que enchiam de alegria o salão suntuoso do palácio.
O grão-vizir do rei Hassan, que ouvira a combinação feita com o mago, disse, em tom confidencial, ao soberano.
- Acho prudente, ó Rei, impedir que esse feiticeiro realize a mágica infernal que acaba de prometer. A vela azul, estou certo, iria causar em vosso palácio um escândalo nunca visto!
- Escândalo? – exclamou o rei. – Escândalo por quê? Não achas, ó Vizir!, que seria divertido ver-se a atrapalhação de um fidalgo despojado de suas medalhas e o rubor de uma dama despedida de sua capa de arminho? Não leves a tua timidez a tal extremo, pois muita surpresa nos reserva, com certeza, a mágica da vela azul!
Replicou o grão-vizir:
- A surpresa, feita sem cautela, pode trazer consigo a vergonha e a desonra. Vejo-me forçado a levar ao vosso conhecimento uma particularidade que naturalmente ignorais.
E, ao ouvido do rei, muito em segredo, o digno ministro assim falou:
- A vossa digna esposa – nossa incomparável rainha – ostenta, na festa de hoje, um vestido cor-de-rosa que é um deslumbramento de arte e fino gosto. Acontece, porém, que esse maravilhoso vestido foi feito especialmente para uma das damas de honra, e a rainha, ao vê-lo hoje, pela manhã, ficou encantada. A gentilíssima dama não teve dúvidas em cedê-lo a Sua Majestade, e deixou, com tal sacrifício, de comparecer a esta festa. Meditai, ó Rei, sobre as consequências da ação mágica da vela azul. É possível que a vossa esposa, despida de um vestido que por casualidade não lhe pertence, apareça, aos olhos de vossos convidados, nua como uma bailarina hindu! E não será isso um vexame para a vossa família e uma desonra para o vosso nome? Bem certo estou de que não consentireis esse escândalo. Uma rainha inocente e casta não pode, em consequência de um capricho, servir de pasto à cupidez de todos os olhares!
Ao ouvir a inesperada revelação do grão-vizir, o rei ficou trêmulo, como se ouvisse a notícia de uma declaração de guerra ou fosse prevenido de uma nova revolução. Para o rei Hassan Kamir a pilhéria que ia atingir e humilhar os seus súditos deixou de ter interesse, uma vez que poderia ferir com o ridículo a sua estremecida esposa.
- Não permitirei – declarou, arrebatado – que se realize em meu palácio essa diabólica artimanha da vela azul. Não posso expor os meus convidados a um desgosto ou a um vexame!
E, tirando da cintura uma bolsa cheia de moedas de ouro, despejou-a sobre a vela azul do mago, apagando a chama que ia produzir o espantoso encantamento.
- Guarda esse ouro, ó Sábio alquimista! – ordenou, secamente, dirigindo-se ao feiticeiro. – Estás dispensado das demonstrações que pretendias fazer. Pensei melhor sobre o caso e tomei nova resolução. Seria uma indignidade que eu tentasse ferir com o ridículo os meus mais dedicados súditos!
- A grande mágica, ó Rei! – proclamou o sábio ocultista, arrebatando avidamente as moedas – acaba de ser por vós praticada. Com o amarelo do ouro conseguistes apagar o azul da vela!