setembro 23, 2005

Homem & Macaco

Licia nos contou em novembro de 2001, uma lenda recente, ocorrida em certa floresta.
Diz-se que, certa vez, três macacos estavam sentados numa árvore, discutindo sobre as coisas da vida, falando acerca do que ouviram.
Disse, então, o mais jovem:
- Há um rumor de que pode ser verdade que os seres humanos descendem da nossa nobre raça.
O mais velho de todos afirmou com indignação:
- Essa idéia é uma enorme desgraça!
O macaco do meio, confirmando, afirmou:
- Nenhum macaco jamais desprotegeu sua fêmea ou deixou seus bebês famintos ou arruinou a vida deles!
O mais jovem retrucou:
- É verdade!
O macaco do meio, continuou:
- E nunca ouviu-se dizer que alguma mãe macaca tivesse dado seus filhos para outra ou que alguma delas, estando viva, tivesse passado os filhos de uma para outra mãe, até que eles ignorassem de quem realmente eram filhos!
O macaco mais jovem, novamente, exclamou:
- É verdade!
O mais velho interviu:
- Há também uma outra coisa que nunca foi vista: macacos cercando um coqueiro e deixando os côcos apodrecer, proibindo outros macacos de alimentarem-se, já que se a árvore fosse cercada, a fome faria outros macacos nos roubarem!
Novamente, o macaco mais jovem disse:
- É verdade!
O macaco do meio, acrescentou:
- Há ainda uma outra coisa que macacos jamais fizeram: sair à noite para roubar, usando arma de fogo, porretes ou facas para tirar a vida de outros macacos!
O macaco mais jovem, então concluiu:
- Os humanos descendem de uma espécie rude, mas com certeza não é da nossa!

Aproximar-se de Deus

O rabino Dov Baer estudava as Escrituras, enquanto seu filho de um ano dormia ao lado de sua mesa de trabalho.
Em dado momento, a criança acordou e começou a chorar.
Dov Baer, concentrado no que lia, não prestou a menor atenção.
A criança chorou muito tempo seguido, até que o rabino Zalman veio correndo do seu quarto e colocou-a no colo.
Zalman virou-se para Dov Baer e disse:
- Admiro a sua concentração no trabalho; se queremos entender Deus, é importante o estudo das Escrituras. Mas, se queremos nos aproximar de Deus, temos que primeiro consolar aqueles que choram!

A bondade de Deus


Nos conta Lori que, no distante reino de Falgu, havia o rei Kedim, que não confiava na bondade de Deus. Seu valete Habech, porém, crente no Deus Clemente e Misericordioso, lembrava sempre ao rei Kedim que a Bondade Deus (Para Sempre Louvado Seja) era uma verdade incontestável. Sempre que havia oportunidade, Habech dizia:
- Meu senhor, permaneças crente, não desanimes, porque Deus é bom!
Um dia, o rei Kedim saiu para caçar juntamente com seu valete Habech, e uma fera da floresta atacou o rei. Habech conseguiu matar o animal, porém não conseguiu evitar que sua Majestade perdesse o dedo mínimo da mão direita.
O rei Kedim, furioso pelo que havia acontecido e sem mostrar agradecimento por ter sua vida sido salva pelos esforços de seu servo, perguntou a este:
- E agora? O que tendes a me dizer? Tu que sempre dizeis que Deus é bom? Se Deus fosse bom eu não teria sido atacado, como também não teria perdido o meu dedo.
Habech lhe respondeu:
- Meu senhor, apesar de todos esses acontecimentos, somente posso afirmar-lhe que Deus é bom, e que mesmo isso que sucedeu, Vossa Majestade haver perdido um dedo, é para o vosso próprio bem!
O rei Kedim, indignado com a resposta de Habech, mandou que fosse enclausurado na cela mais escura e mais fétida do calabouço.
Passado algum tempo, o rei Kedim saiu novamente para caçar e aconteceu de ser atacado, desta vez por uma tribo de aborígines que vivia na floresta. Estes pagãos eram temidos por todos, pois se sabia que faziam sacrifícios humanos para os seus deuses.
Assim que aprisionaram o rei, passaram a preparar, cheios de júbilo, o ritual do sacrifício.
Quando já estava tudo pronto, com o rei Kedim diante do altar de sacrifícios, o sacerdote aborígine, ao examinar a vítima, observou furioso:
- Este ser não pode ser sacrificado, já que é defeituoso!...Falta-lhe um dedo! ...E irritado mandou libertar o rei Kedim.
O rei conseguiu retornar a Falgu e ao estar novamente em seu palácio, muito alegre e aliviado, mandou libertar Habech e pediu que fosse enviado à sua presença.
Ao ver seu servo, abraçou-o afetuosamente dizendo-lhe:
- Meu caro, Deus foi realmente bom comigo! Você já deve estar sabendo que escapei da morte justamente porque não tinha um dos dedos. Porém, tenho em meu coração uma grande dúvida: Se Deus é tão bom, por que permitiu que você fosse preso da maneira como foi? ...Logo você, que tanto O defende?
Habech sorriu e disse:
- Meu senhor, se eu estivesse convosco nessa caçada, certamente teria sido sacrificado em vosso lugar, pois que não me falta dedo algum!

setembro 20, 2005

A Violeta Ambiciosa


Era uma vez, conta Gibran Khalil Gibran, uma fragrante e formosa violeta que vivia placidamente em meio às amigas, e balouçava-se feliz entre outras flores num jardim solitário.
Uma manhã, quando a sua coroa era adornada pelas contas de orvalho, ergueu a cabeça, e olhando para o alto viu uma rosa, alta e linda que, cheia de orgulho, procurava o espaço como uma tocha ardente sobre lanterna de esmeralda.
A violeta abriu os lábios azuis e disse:
- Como eu sou infeliz em meio a estas flores e como é humilde a posição que ocupo diante delas! Fez-me a natureza para ser curta e pobre... Eu vivo muito próxima da terra e não posso erguer minha cabeça até o céu azul ou volta minha face ao sol como as rosas fazer!...
E a rosa ouviu as palavras de sua vizinha; ela riu e comentou:
- Como é estranha a tua fala! Tu és feliz, embora não possas compreender tua fortuna. A natureza dotou-me de fragrância e beleza, o que não fez com nenhuma outra flor... Aparta de ti estes pensamentos, sê contente e lembra-te de que aquele que se humilha será exaltado e aquele que se exalta será esmagado.
- Consolas-me porque tens o que eu almejo... Procuras amargurar-me cada vez mais com a idéia de que és grande... Como é dolorosa a pregação dos felizes para o coração do miserável! E como o forte é severo quando quer ser o conselheiro dos fracos! – respondeu a violeta.
E a natureza ouviu o diálogo da violeta e da rosa, aproximou-se e disse:
- O que te aconteceu, irmã violeta? Foste sempre humilde e doce em todas as tuas ações e palavras. Será que a ambição invadiu teu coração, embotando teus sentidos?
Numa voz suplicativa, a violeta respondeu, dizendo:
- Ó mãe grande e misericordiosa, cheia de amor e simpatia, imploro-te com todo o meu coração e minha alma, que atendas às minhas súplicas e permitas que eu seja rosa por um dia apenas.
- Não sabes o que está ambicionando; ignoras a tristeza que se oculta atrás desta ambição cega. Se chegasses a rosa serias triste, e logo te encherias de arrependimento – respondeu a natureza.
- Muda-me numa rosa alta, porque eu quero soerguer a cabeça com orgulho; e, seja qual for o meu destino, eu quero ser rosa.
A natureza concordou, dizendo:
- Ó violeta ignorante e revoltada, acederei aos teus desejos, mas se a desgraça cair sobre ti, deverás queixar-te apenas de ti.
E a natureza estendeu os dedos misteriosos e mágicos, e tocou as raízes da violeta que, imediatamente, se transformou numa alta rosa, pompeando sobre todas as outras no jardim.
À tarde, o sol tornou-se espesso de nuvens negras; os elementos raivosos perturbaram o silêncio da existência com raios, e começaram a atacar o jardim, enviando à terra enorme chuva com fortes ventos. A tempestade lacerou os ramos e desenraizou as árvores e quebrou as hastes das flores altas, poupando apenas as pequeninas que cresciam bem junto ao coração da terra.
Aquele jardim solitário sofreu muito ao impacto dos céus adversos, e, quando a tempestade acalmou e o céu clareou, todas as flores estavam deitadas pelo chão e nenhuma escapara à fúria da natureza, exceção do clã de pequenas violetas nascido bem junto ao muro do jardim.
Tendo erguido a cabeça e contemplando a tragédia das flores e árvores, uma das violetas jovens sorriu feliz e chamou por suas companheiras, dizendo:
- Olha o que a tempestade fez às flores orgulhosas!
- Somos pequenas, vivemos próximas da terra, mas estamos a salvo da ira dos céus – disse outra violeta. E uma terceira acrescentou:
- Por sermos pobres em altura a tempestade é incapaz de subjugar-nos.
Naquele momento a rainha das violetas viu a seu lado a violeta metamorfoseada, derrubada para a terra pela tempestade e contorcendo-se sobre a úmida alfombra como um soldado ferido num campo de batalha. A rainha das violetas ergue a cabeça e convocou sua família, dizendo:
- Olhai, minhas filhas, e meditai sobre o que a ambição fez à violeta que se transformou numa rosa orgulhosa por uma hora. Seja a memória desta cena uma lembrança eterna da vossa boa sorte.
E a rosa moribunda moveu-se e reuniu o que ainda sobrava de suas forças e tranquilamente disse:
- Vós sois contentes e joviais. Nunca temi a tempestade. Ontem eu, também, estava satisfeita com a vida, mas o contentamento agiu como uma barreira entre minha existência e a tempestade da vida, confinando-me numa doentia e vigorosa tranquilidade de espírito. Eu poderia continuar levando a mesma vida que levais agora, inclinando-vos assustadas para a terra... Eu poderia ter esperado pelo inverno, para com a neve branca amortalhar-me e entregar-me à morte que certamente é o abrigo final de todas as violetas... Eu estou feliz agora porque fora do meu pequeno mundo estou mergulhada no mistério do universo... coisa que vós ainda não fizestes. Eu devo ter encarado a ambição, cuja natureza é mais alta do que eu, mas, enquanto eu estava atenta ao silêncio da noite, ouvia o mundo celeste falando a este mundo terreno: “a ambição além da existência é o propósito essencial do nosso ser”. Nesse momento meu espírito revoltou-se, e meu coração sonhou por uma posição mais alta do que a minha limitada existência. Imaginei que o abismo não pode ouvir o canto das estrelas, e naquele momento comecei a lutar contra a minha pequenez e ambicionar por aquilo que não me pertence, até que a minha revolta se transformou num grande poder, e o meu desejo numa vontade criadora... A natureza, que é o grande objeto de nossos sonhos mais profundos, atendeu a minha súplica e transformou-me numa rosa com seus mágicos dedos.
A rosa silenciou por um momento, e de voz frouxa, ainda cheia do seu orgulho, disse:
- Vivi por uma hora apenas como uma rosa orgulhosa; existi por algum tempo feito uma rainha; contemplei o universo através dos olhos da rosa; ouvi o sussurro do firmamento pelos ouvidos da rosa e toquei as dobras do manto da luz com as pétalas da rosa. Alguma de vós poderá proclamar semelhante honra?
Tendo assim falado, baixou a cabeça e, com voz sufocada, murmurou:
- Agora eu posso morrer, pois minha alma alcançou o seu objetivo. Estendi, finalmente, o meu conhecimento para o mundo que fica além da estreita caverna do meu nascimento. Este é o desígnio da vida... Este é o segredo da existência.
Então a rosa estremeceu, dobrou lentamente as suas pálpebras, e respirou pela última vez com um sorriso celestial nos seus lábios... um sorriso pleno de esperança e de propósito de vida... Um sorriso de vitória... Um sorriso de Deus.

setembro 19, 2005

O Sermão

Uma vez um mestre zen parou diante de seus discípulos, prestes a proferir um sermão.

No instante em que ele ia abrir a boca, um pássaro cantou. E ele disse: “O sermão já foi proferido”.