outubro 20, 2005

Sinais



Conta-se, conforme me disse a Regiane, que Kalil, um velho árabe analfabeto, alimentador de camelos de um oásis, orava com tanto fervor e com tanto carinho, toda noite, que certa vez, Fuhad, o rico chefe de uma grande caravana chamou-o à sua presença e lhe perguntou:
- Por que oras com tanta fé? Como sabes que Deus existe, quando nem ao menos sabes ler?
E Kalil respondeu:
- Grande senhor, conheço a existência de Nosso Pai Celeste pelos sinais dele.
- Como assim? - indagou o chefe, admirado.
O servo humilde explicou-se:
- Quando o senhor recebe uma carta de pessoa ausente, como reconhece quem a escreveu?
- Pela letra. - disse Fuhad.
- Quando o senhor recebe uma jóia, como é que se informa quanto ao autor dela? – indagou o velho crente.
- Pela marca do ourives. – afirmou o caravaneiro.
O empregado sorriu e acrescentou:
- Quando ouve passos de animais, ao redor da tenda, como sabe, depois, se foi um carneiro, um cavalo um boi?
- Pelos rastros - respondeu o chefe, surpreendido.
Então, o velho crente convidou-o para fora da barraca e, mostrando-lhe o céu, onde a Lua brilhava, cercada por multidões de estrelas, exclamou, respeitoso:
- Senhor, aqueles sinais, lá em cima, não podem ser dos homens!
Nesse momento, o orgulhoso caravaneiro, de olhos lacrimosos, ajoelhou-se na areia e começou a orar também.